EstudoDa casa ao parque: os caminhos até os parques de São Paulo e as desigualdades de acesso por renda, raça e idade

Da casa ao parque: os caminhos até os parques de São Paulo e as desigualdades de acesso por renda, raça e idade

Este estudo investiga como a acessibilidade da população de São Paulo aos parques da cidade se altera diante de duas mudanças previstas. A primeira é a expansão da rede de parques planejada no Plano Diretor Estratégico de 2014 e Plano Municipal de Áreas Protegidas, Áreas Verdes e Espaços Livres (PLANPAVEL) de 20221. A segunda é a expansão da rede de metrô prevista nos planos oficiais até 2040. Em todos os cenários, a distribuição da população e suas características sociodemográficas são mantidas fixas, conforme o Censo Demográfico de 2022 (IBGE).
 
O objetivo é isolar o efeito de cada intervenção sobre quem consegue acessar os parques. A análise se divide em dois exercícios, que refletem funções distintas dos parques. O primeiro trata dos parques de proximidade, usados no cotidiano. Ele considera todos os parques da cidade e o deslocamento a pé de até 15 minutos, variando a rede de parques. O segundo trata dos parques de alcance regional, com potencial de atrair visitantes de toda a cidade. Ele seleciona os dois parques mais visitados de cada uma das oito macro regiões com dados disponíveis, totalizando 16 parques, e mede o acesso por transporte público em 30, 60 e 90 minutos, variando a rede de metrô. Em seguida, aprofunda a análise no acesso em 60 minutos, detalhando quem já alcança cada parque e quem passa a alcançá-lo com a expansão da rede. No exercício de proximidade, a expansão da rede de parques amplia de forma expressiva o acesso a pé. A parcela da população a até 15 minutos de um parque sobe de cerca de um quarto para metade, e o tempo mediano de caminhada cai de 26 para 15 minutos. O ganho é socialmente progressivo. Entre os 40% mais pobres, a cobertura passa de 28,0% para 58,8%, enquanto entre os 10% mais ricos vai de 26,8% para 42,2%, uma diferença de 15,4 pontos percentuais no ganho de acesso entre os dois grupos. O mesmo padrão aparece na raça e na idade. A população negra e as crianças são os grupos que mais ganham. Esse efeito redistributivo decorre da geografia da expansão, concentrada nas periferias, onde estão os ativos ambientais que motivaram a demarcação dos parques e onde vive a população de menor renda, negra e mais jovem.
 
No exercício de alcance regional, a expansão do metrô move pouco o acesso via transporte público no agregado da cidade. Considerando os 16 parques selecionados, a proporção da população que alcança ao menos um parque regional em 60 minutos passa de 81,3% para 83,8%, um ganho de cerca de 280 mil pessoas. Ainda assim, o ganho também é progressivo, e quem passa a ter acesso é mais jovem, mais pobre e mais negro que a média da cidade. Ao analisar o que acontece com cada um dos 16 parques, o efeito de rede marca os resultados. Embora os novos trilhos avancem sobre a periferia, são os parques centrais os que mais ampliam sua população de alcance, porque se situam nos pontos de convergência da rede de transporte público. O parque Ibirapuera registra a maior democratização e o maior ganho em número de pessoas. O parque Aclimação lidera em ganho percentual de alcance. No extremo oposto, parques periféricos como o Anhanguera e o Horto Florestal quase não se beneficiam, e há casos regressivos, a saber, cenários em que a nova população com acesso aos parques possui uma renda acima da que está atualmente próxima, como o Vila Guilherme, cujo público se torna ainda mais rico.
 
O principal achado do estudo é que, se todos os parques fossem implementados, o maior desafio no acesso ao lazer e áreas verdes em parques deixa de ser a proximidade física e passa a ser a concentração de equipamentos e ativos de lazer em poucos parques. Se metade da população passa a ter um parque a 15 minutos caminhando de casa, é preciso garantir que esse parque faça sentido para quem vive perto dele e seja usado no dia a dia e nos finais de semana. Caso contrário, as pessoas continuarão a se deslocar por uma hora ou mais em busca de melhor infraestrutura e programação oferecidas por parques mais distantes.
 
A expansão da rede de metrô melhora a acessibilidade aos parques das zonas centrais, mas essa melhoria pode, paradoxalmente, aprofundar a desigualdade entre parques centrais e periféricos. Como os parques centrais costumam oferecer melhor infraestrutura e programação, torná-los mais acessíveis pode levar parte da população periférica a preferir se deslocar até eles, esvaziando os parques próximos de casa. Isso pode enfraquecer justamente os parques das áreas mais vulneráveis: com menos frequentadores, reduzem-se o uso cotidiano e a apropriação desses espaços pela comunidade do entorno.
 
As recomendações seguem dessa leitura. É preciso qualificar os equipamentos e ativos de lazer dos parques de proximidade e dos periféricos, em diálogo com as comunidades que os utilizam, monitorar e proteger os parques regionais periféricos do esvaziamento, integrar a expansão dos trilhos com a reestruturação da rede de ônibus, incorporar o aumento de demanda à gestão dos parques concessionados, revertendo processos de elitização de serviços e privatização de programações, e tratar a caminhabilidade como o último elo do acesso de proximidade. Ampliar as áreas verdes no mapa da cidade é um passo necessário, mas não suficiente. Para se traduzir em uso real e equitativo, a expansão precisa vir acompanhada de uma política de distribuição de equipamentos e de diálogo com quem usa os parques.
 
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